quinta-feira, 10 de maio de 2012

Psicopatia Sobrenatural - conto do concurso SOS Maldição TItanic

Sorry, this post is only in Portuguese =/


Psicopatia Sobrenatural

Eis uma história que por mais que eu fuja, finja que não me meti e esconda, está ai, gravada em minha alma. Uma história que me perturba, que poderia ter sido a matéria perfeita e eu simplesmente joguei lá na pasta mais escondida dos meus arquivos no computador. Vergonha, receio que me achem louca. Mas o fato é que a história por si só é surpreendente.
Havia um jovem rapaz uruguaio, que em um determinado momento de sua vida, sumiu de seu país. Viajou em vários cantos do planeta, com um objetivo macabro: matar pessoas. A principio, suas vítimas não tinham o padrão que se espera de serial killers. Porém a coisa mudou de figura nos Estados Unidos, quando passou a matar herdeiros e descendentes de envolvidos com o navio Titanic. Foi quando o pegaram.
Ele ia, por fim, dar cabo de um jovem casal que se encaixava dentro do perfil final dele, quando o FBI conseguiu detê-lo. Ele se entregou pacificamente e desde então nunca mais falou. Advogados, promotores, defensores públicos nunca escutaram sua voz, tampouco o Uruguai conseguiu trazê-lo para que cumprisse sua pena em seu solo natal.
O fato é que quando o conheci, Daniel Velásquez estava no corredor da morte, a poucos dias de sentir a picada final, a temida injeção letal.
Vários repórteres tentaram em vão entrevistá-lo, ao que ele sempre se recusara, usando alguns gestos ou permanecendo em seu silêncio absoluto. E eu fui a única aceita.
O clima daquele corredor é tenebroso, cheira a morte. O guarda abriu a cela e ele levantou sua cabeça, me encarando com um olhar meio afetivo, dando sinal para o guarda deixar-nos as sós.
-Sou Ângela Reed, repórter do jornal Garden.
-A senhorita é muito bonita – disse ele, num tom carregado de sotaque, mas uma voz melodiosa e gentil. – A senhorita veio saber minha história? Creio que a senhorita vá me achar louco, vai de sua fé.
Seu discurso era solene, um inglês que denotava o tom básico que se vê em estrangeiros com facilidade, mas não, não era assim... E então ele começou.
-Eu nasci com consciência plena, sim, mesmo quando bebê. Eu não era Daniel, não essa consciência. Como disse, vai da fé da senhorita, mas me recordo todinha a vida passada que tive, em momento algum fui verdadeiramente o Daniel, e sim, Joshua Tolkke, um ordinário passageiro da terceira classe que afundou com o maldito Titanic. Deve saber bem do navio. Não há o que eu deva explicar, apenas ressalvo que eu ia na viagem acompanhado pela minha esposa, Laura, que estava grávida. Nem eu e nem ela sobrevivemos, mas ela...Oh, meu Deus, mataram-na a tiro! Estavam nos trancafiando para não subirmos e tomarmos os botes e na confusão, fizeram disparos. Uma das balas acertou a testa de Laura!
Sua voz embargada denotava sentimentos sinceros, mas naquele momento, tudo o que eu fazia era ouvir friamente como uma boa repórter deveria fazer.
-E conseguiram. A sensação horrível da água gelada, como agulhas fincando em minha pele, o desespero em respirar não tendo nada além de água... Nada disso dissipara meu ódio em meus instantes finais. Minha Laura morta, meu filho morto! Eu não conheci a paz da morte, e a trouxe para essa miserável vida como Daniel. Sim, eu fingi friamente ser um garotinho feliz no Uruguai, escondendo de todos quem de fato eu era. Então eu cresci, e há alguns anos, eu lendo uma matéria sobre um jovem prodígio na China, reconheci aquele menino como o algoz de minha esposa. Eu parti para China, o encontrei, o torturei sadicamente e por fim, o matei. Um tiro na testa, tal qual ele deu em minha esposa. O segundo, foi o capitão do navio, o desgraçado que não soube controlar aquele monstro de ferro, como um jovem universitário na Polônia. E assim foi indo, matando os donos da empresa, quem os construiu, todas as suas encarnações atuais. Criaturas tolas, morrem inconscientes dos demônios que foram no passado. Mas minha sede não se aplacou. – sua voz saia do tom quase choroso para um frio, sádico, o prazer em ter o sangue daquelas pessoas que nessa vida nada tinham haver com o trágico episódio do Titanic nas mãos estampava sua voz.
Seu rosto, contorcido num sorriso macabro, os olhos brilhando me assustaram, olhos de um psicopata.
-Então decidi matar os descendentes dos sangue nojentos que provocaram tudo aquilo, da mesma forma, tortura física, psicológica e tiros. Enfim, me acharam e me pegaram e aqui eu estou.
Ele falou resumidamente mesmo, sem grandes detalhes. Mas falou o essencial e o macabro para mim, para a possível matéria. Mas eu ainda tinha minhas dúvidas:
-O senhor encontrou Laura?
Ele ficou quieto, mudo. Me encarou e por fim respondeu, com um tom de voz adocicada e gentil:
-Sim. – ficou por isso mesmo, ainda que eu insistisse. Claro, eu achava loucura! Mas continuei.
-Como o senhor descreveria sua aparência e de Laura?
Talvez o relato mais detalhado: Joshua tinha por volta dos 27 anos, moreno, alto para padrões da época, o cabelo displicente e meio longo e roupas meio maltrapilhas. Laura, ficava uma graça ainda nas roupas pobres, cabelos castanhos e levemente ondulados, miúda e graciosa, uma lady nascida no lugar errado.
Fiz outras perguntas mais triviais, sobre sua vida no Uruguai, escolha das armas e métodos entre outros. Mas sentia pontadas internas, como um sinal estranho em mim, mas pensei no momento que eu estava me deixando levar por emoções, afinal, era um história apavorante.
Por fim, o tempo acabara e eu arrumava meu caderno de anotações na bolsa e me levantava, quando senti as mãos daquele homem louco me segurarem e puxarem para ele. Antes que eu protestasse, ele me beijara delicada, mas apaixonadamente.
Sai assustada e apressada, as pontadas me dominando enquanto não saia daquele prédio. O ar poluído da cidade me fez bem, mas as idéias me soaram loucas e fui investigar sobre Joshua e Laura Tolkke. Mas até sumir da vista dele, eu o sentia olhar para mim, seus olhos queimando minha pele, num misto de dor e loucura.
De fato, encontrei seus nomes. “Mas ele deve ter lido isso em algum lugar”, eu pensei. Doce ilusão. Continuava minhas pesquisas e mais e mais tudo parecia se encaixar. E por fim, a cereja do bolo: uma foto dos dois, a descrição batendo com tanta clareza que podia-se jurar que ele de fato os vira... ou vivera eles.
Mas me intrigara Laura, as pontadas retornando e me sufocando, a sensação gélida, e outra de dor na cabeça. Sentimentos confusos me invadindo quando a olhava, sorrindo lindamente naquela foto.
Eu sabia que naquele momento, Daniel estava sendo executado e as 4 horas e 7 minutos eu perdi o ar. Daniel morrera por fim e o choque me despertara para algo e eu entendi algo: Laura, a doce lady que nascera pobre... era eu! Eu fui a esposa de Joshua, que nascido como Daniel, buscava me vingar e me buscava!
Uma alma que eu sabia perfeitamente que não teria paz, não descansaria. Minhas lágrimas me afogavam, mergulhavam minha voz tal qual o poderoso e falecido Titanic suspirava fatalmente no pacífico. Ele retornaria, de novo e de novo, matando meus algozes... Aspirando-me para sua própria maldição...
Eu teria de tentar entender os sentimentos, tentar nascer próximo a ele, eu queria renascer me lembrando de tudo para impedi-lo. Meus desejos sufocados em lágrimas, a angústia me tomando.
Me pediram para cobrir sobre o velório dele, e eu fui. Estava lá eu com caderno em mãos e um repórter fotográfico no Uruguai. Eu podia ver as lágrimas sinceras nos olhos da mãe de Daniel, me perguntando se ela sabia da verdade ou ignorava. Fiz-lhe perguntas como uma boa repórter deveria fazer e ela me respondeu docemente, talvez na dor de perder o filho, ela estava anestesiada. Ela falava um inglês escolar.
Me aproximei do caixão e vi ele numa expressão de quem não descansara direito. Minhas conclusões acerca daquilo estavam corretas, ele não havia descansado e nem descansaria mais, talvez pela eternidade. Eu sussurrei para ele:
-Você precisa ir... Precisa descansar... buscar vingança não me trará de volta, não fará o tempo voltar. E as almas inocentes que você amaldiçoou, que nada tinham com o Titanic? A mãe do prodígio que você matou, a namorada do universitário?
Meu colega estranhou minha atitude de conversar com um morto, podia sentir seu olhar torto em minha direção parecendo reprovar ou me achar louca.
-E minha alma? Que você maculou despertando do sono da eternidade, me torturando ao lembrar do frio e do tiro? Não poderia ter simplesmente me procurado e me feito te amar de novo?
Eu buscava forças em mim mesma para não chorar ou expressar em meu rosto a minha dor, minha revolta silenciosa como Laura berrando em minha cabeça, percorrendo minhas veias. Será que ainda sim ele podia me ouvir? Até cogitei ocorrer como nos filmes de terror, os olhos abrindo arregalados e ele me tragando para a morte. Mas era a vvida real, ainda que loucamente sobrenatural.
Me inclinei sobre seu rosto, num gesto mórbido, beijando seus lábios frios e duros pela morte. Senti o silêncio e o asco dos poucos que ali velavam, mas senti que era Laura agindo naquele momento, despedindo-se de forma apropriada que outrora não pudera. Olhei para meu colega e sai da sala, aguardando o dia que eu impediria a psicopatia sobrenatural nascida do ódio de Joshua. O dia em que lutaria para romper a maldição que ele pôs em mim também.